quarta-feira, 24 de abril de 2019

Neurociência na Educação:

A IMPORTÂNCIA DA NEUROCIÊNCIA NA EDUCAÇÃO

Vera Lucia de Siqueira Mietto


           Os avanços e descobertas na área da neurociência ligada ao processo de   aprendizagem é sem dúvida uma revolução para o meio educacional. A  Neurociência da aprendizagem, em termos gerais, é o estudo de como o cérebro  aprende. É o entendimento de como as redes neurais  são estabelecidas no  momento da aprendizagem, bem como de que maneira os estímulos chegam ao  cérebro, da forma como as memórias se consolidam e de como temos acesso a  essas informações armazenadas.  
         Quando falamos em educação e aprendizagem, estamos  falando em  processos neurais, redes que se estabelecem, neurônios que se ligam e fazem  novas sinapses. E o que entendemos por aprendizagem? Aprendizagem, nada mais  é do que esse maravilhoso e complexo processo pelo  qual o cérebro reage aos  estímulos do ambiente, ativa essas sinapses (ligações entre os neurônios por onde  passam os estímulos), tornado-as mais “intensas”. A cada estímulo novo, a cada repetição de um comportamento que queremos que seja consolidado temos circuitos  que processam as informações que deverão ser então consolidadas. 
             A neurociência nos vem descortinar o que antes desconhecíamos sobre o  momento da aprendizagem. O cérebro, esse órgão fantástico e misterioso, é  matricial nesse processo do aprender. Suas regiões, lobos, sulcos, reentrâncias tem  sua função e real importância num trabalho em conjunto, onde cada um precisa e  interage com o outro. Mas qual o papel e função de cada região cerebral? Aonde o  aprender tem realmente a sua sede e necessita ser estimulada adequadamente?   Conhecer o papel do hipocampo na consolidação de nossas memórias, a  importância do sistema límbico, responsável pelas nossas emoções, desvendar os  mistérios que envolvem a região frontal, sede da cognição, linguagem e escrita,  poder entender os mecanismos atencionais e comportamentais de nossas crianças  com TDAH, as funções executivas e o sistema de comando inibitório do lobo pré-frontal é hoje fundamental na educação, assim como, compreender as vias e rotas  que norteiam a leitura e escrita (regidas inicialmente pela região visual mais  específica (parietal), que reconhece as formas visuais das letras e depois acessando  outras áreas para que a codificação e decodificação dos sons sejam efetivas. Como  não penetrar nos mistérios da região temporal relacionado a percepção e  identificações dos sons onde os reconhece por completo? (área temporal verbal que  produz os sons para que possamos fonar as letras).  Não esquecendo a região  occipital que tem como uma de suas funções coordenar e reconhecer os objetos assim como o reconhecimento da palavra escrita. Assim, cada órgão se conecta e  se interliga nesse trabalho onde cada estrutura com seus neurônios específicos e  especializados desempenham um papel importantíssimo nesse aprender. 
          Podemos compreender desta forma que o uso de estratégias adequadas em  um processo de ensino dinâmico e prazeroso provocará, consequentemente,  alterações na quantidade e qualidade destas conexões sinápticas, afetando assim o  funcionamento cerebral de forma positiva e permanente com resultados  extremamente satisfatórios. 
          Estudos na área neurocientífica, centrados no manejo do aluno em sala de  aula, vem nos esclarecer que a aprendizagem ocorre quando dois ou mais sistemas  funcionam de forma inter relacionada. Assim, podemos entender, por exemplo, como  é valioso aliar a música e os jogos em atividades escolares, pois há a possibilidade  de se trabalhar simultaneamente mais de um sistema: o auditivo, o visual e até  mesmo o sistema tátil (a música possibilitando dramatizações).  
           Os games (adorados pelas crianças e adolescentes), ainda em discussão no  âmbito acadêmico, são fantásticos na sua forma de manter nossos alunos plugados  e podem ser mais uma ferramenta facilitadora, pois possibilita estimular o raciocínio  lógico, a atenção, a concentração, os conceitos matemáticos e através de  cruzadinhas e caça-palavras interativos, desenvolver a ortografia de forma  desafiadora e prazerosa para os alunos. Vários sites na internet nos disponibilizam  esses jogos. 
           Desta forma, o grande desafio dos educadores é viabilizar uma aula que  'facilite' esse disparo neural, as sinapses e o funcionamento desses sistemas, sem  que necessariamente o professor tenha que saber se a melhor forma de seu aluno  lidar com os objetos externos é: auditiva, visual ou tátil. Quando ciente da  modalidade de aprendizagem do seu aluno, (e isso não está longe de termos na  formação de nossos educadores) o professor saberá quais estratégias mais  adequadas utilizar e certamente fará uso desse grande e inigualável meio facilitador  no processo ensino – aprendizagem. 
        Outra grande descoberta das neurociências é que através de atividades  prazerosas e desafiadoras o “disparo” entre as células neurais acontece mais  facilmente: as sinapses se fortalecem e redes neurais se estabelecem com mais  facilidade.  
           Mas como desencadear isso em sala de aula? Como o professor pode ajudar  nesse “fortalecimento neural”? Todo ensino desafiador ministrado de forma lúdica  tem esse efeito: aulas dinâmicas, divertidas, ricas em conteúdo visual e concreto,  onde o aluno não é um mero observador, passivo e distante, mas sim, participante, questionador e ativo nessa construção do seu próprio saber.  
            O conteúdo antes desestimulante e repetitivo para o aluno e professor ganha  uma nova roupagem: agora propicia novas descobertas, novos saberes, é dinâmico  e flexível, plugado em uma era informatizada aonde  a cada momento novas  informações chegam ao mundo desse aluno. Professor  e aluno interagem  ativamente, criam, viabilizam possibilidades e meios de fazer esse saber,  construindo juntos a aprendizagem. 
        Uma aula enriquecida com esses pré-requisitos é mágica, envolvente e  dinâmica. É saber fazer uso de uma estratégia assertiva onde conhecimentos  neurocientíficos e educação caminham lado a lado. Mas como isso é possível? O  que fazer em sala de aula? A seguir veremos algumas sugestões que podem ser  adotadas: 

1- Estabeleça regras para que haja um convívio harmonioso de todos em sala de  aula, fazendo com que os alunos sejam responsáveis pela organização, limpeza  e utilização dos materiais. Opinando e criando as regras e normas adotadas,  eles se sentirão responsáveis pela sala de aula.

2- Faça uso de materiais diversificadosque explorem todos os sentidos. Visual:  mural, cartazes coloridos, filmes, livros, filmes educativos; Tátil: material  concreto e objetos de sucata planejados. Há uma riqueza de sites na internet  que nos disponibilizam atividades muito ricas e prazerosas. A criatividade aflora  e a aula se torna muito divertida; Auditivo: música e bandinhas feitas com  material de sucata, sempre com o conteúdo inserida  nelas. A criação de  músicas sobre conteúdos é uma forma divertida de aprender. Talentos  apareceram em sala de aula. E quem não gosta de cantar? A aula fica muito rica  e prazerosa!  

3- Reserve um lugar com almofadas e tapete, para momentos de descanso e  reflexão. O “cantinho da leitura” é fundamental na sala de aula na ausência de  uma biblioteca. Relaxar após o trabalho prazeroso significa dar tempo para o  cérebro escanear todo o conteúdo que vai ser assimilado, ativar o hipocampo  (região responsável pelas memórias) e consolidar o que se aprendeu. 

4- Estabeleça rotinas onde possam realizar trabalhos individuais, em dupla e em grupo. Rotinas estabelecidas reforçam comportamentos assertivos e organização. Crianças  com TDAH, que apresentam mal  funcionamento das funções executivas se beneficiam com rotinas e regras pré estabelecidas). O trabalho em equipe  é extremamente prazeroso, ativa  as regiões límbicas (responsáveis pelas emoções) e como sabemos que o aprender está ligado à emoção, a consolidação do conteúdo se faz de maneira mais efetiva. (hipocampo) 

5- Trabalhar o mesmo conteúdo de várias formas possibilita aos alunosoportunidades de vivenciarem a aprendizagem de acordo com suas possibilidades neurais. Dê aos mais rápidos, atividades que reforcem ainda mais esse conteúdo, que os mantenham atentos e concentrados, para que aqueles que necessitem de maior tempo para realizar as atividades não sejam prejudicados com conversas e agitação dos mais rápidos. 


6- A flexibilidde em sala de aula permite uma aprendizagem mais dinâmica e melhor percebida por todos os alunos. O professor que ministra bem os conflitos em sala de aula, que tem "jogo de cintura" e apresenta o conteúdo com prazer, mantém seus alunos "plugados" na aula. 
     Desta forma, sabedores deste mecanismo neural que impulsiona a aprendizagem, das estratégias facilitadoras que estimulam as sinapses e consolidam o conhecimento, desta magia onde cada estruturacerebral se interliga para que todos os canais sejam ativados. Assim, como numa orquestra afinadíssima, onde a melodia sai perfeita, estar de posse desses importantes conhecimentos e descobertas será como reger esta orquestra, onde o maestro saberá o quão precisamente estão ainados seus intrumentos e como poderá tirar deles melodias harmoniosas e suaves! 
       A neurociência se constitui assim em atual e uma grande aliada do professor para poder identificar o indivíduo como ser único, pensante, atuante, que aprende de uma maneira toda sua, única e especial. Desvendando os mistérios que envolvem o cérebro na hora da aprendizagem, a neurociência disponibiliza ao educador moderno (neuroeducador), impressionantes e sólidos conhecimentos sobre como se processam a linguagem, a memória, o esquecimento, o desenvolvimento infantil, as nuances do desenvolvimento cerebral desta infância e os processos que estão envolvidos na aprendizagem a ele proporcionada. Tomarmos posse desses novos e fascinantes conhecimentos é imprenscindível e de fundamental importância para uma pedagogia moderna, ativa, contemporânea, que se mostre atuante e voltada às exigências do aprendizado em nosso mundo globalizado, veloz, complexo e cada vez mais exigente.
            Conceitos como neurônios, sinapses, sistemas atencionais (que viabilizam o  gerenciamento da aprendizagem), mecanismos mnemônicos (fundamentais para o entendimento da consolidação das memórias), neurônios espelho, que possibilitam a espécie humana progressos na comunicação, compreensão e no aprendizado e plasticidade cerebral, ou seja, o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a mudar não mais estarão sendo discutidos apenas por neurocientistas, como até então imaginávamos.  Estarão agora, na verdade, em sala de aula, no dia a dia do educador, pois uma nova visão de aprendizagem está a se delinear. O fracasso e insucesso escolar têm hoje um novo olhar, já que uma nova e fascinante gama de informações e conhecimentos está á disposição do educador moderno. 
           Graças a neurociência da aprendizagem, os transtornos comportamentais e da aprendizagem passaram a ser mais facilmente compreendidos pelos educadores uma vez que proporciona mais subsídios para a elaboração de estratégias mais adequadas a cada caso. Um professor qualificado e capacitado, um método de ensino adequado e uma família facilitadora dessa aprendizagem são fatores fundamentais para que todo esse conhecimento que a  neurociências nos viabiliza seja efetivo, interagindo com as características do cérebro de nosso aluno. Esta nova base de conhecimentos habilita o educador a ampliar ainda mais as suas atividades educacionais, abrindo uma nova estrada no campo do aprendizado e da transmissão do saber.

Retirado  do site: 

Aprendizagem;

Aprendizagens e Mudanças no Cérebro

         Cardoso e Sabbatini
     Até há pouco tempo, os neurocientistas acreditavam que, uma vez completado seu desenvolvimento, o cérebro era incapaz de mudar,  particularmente em relação às células nervosas, ou neurônios. Aceitava-se o dogma segundo o qual os neurônios não podiam se auto-reproduzir ou sofrer mudanças significativas quanto às suas estruturas de conexão com os outros neurônios. As conseqüências práticas dessas crenças implicavam em que: a) as partes lesionadas do cérebro, tais como aquelas apresentadas por vítimas de tumores ou derrames, eram incapazes de crescer novamente e recuperar, pelo menos parcialmente, suas funções e b) a experiência e o aprendizado podem alterar a funcionalidade do cérebro, porém não sua anatomia.
         Parece que os neurocientistas estavam errados em ambos os casos. As pesquisas dos últimos 10 anos têm revelado um quadro inteiramente diferente. Em resposta aos jogos, estimulações e experiências, o cérebro exibe o crescimento de conexões neuronais. Embora  os  pioneiros da pesquisa em comportamento biológico, tais como Donald Hebb, do Canada e Jersy Konorski, da Polônia, acreditassem que a memória implicava em mudanças estruturais nos circuitos neurais, ainda não se dispunha de evidências experimentais que comprovassem essa noção.
           Em experiências realizadas com ratos, a neuroanatomista americana Dr. Marian Diamond foi capaz de demonstrar que os animais que foram criados em um ambiente enriquecedor -- uma gaiola cheia de brinquedos e dispositivos tais como bolas, rodas, escadas, rampas, etc. -- desenvolviam um córtex cerebral significativamente mais espesso do que aqueles criados em um ambiente mais limitado, sem os brinquedos ou vivendo isolados.  O aumento da espessura do córtex não era devido apenas a um maior número de células nervosas, mas  havia também um aumento expressivo de ramificação de seus dentritos e das interconexões com outras células.





Ambiente pobre em objetos





Um ambiente enriquecedor, que permite os ratos interagir com os brinquedos em suas gaiolas, provoca mudanças anatômicas no córtex cerebral. 

         O gráfico à esquerda mostra como o número médio de ramificações observadas nas células estelares, que são encontradas na quarta camada do córtex visual do rato, é maior  nos animais criados em ambientes enriquecedores (reta identificada como EC, isto é, condição enriquecedora) do que nos animais criados juntos em grupos sociais, (identificados como SC, ou condição de grupo social), porém desprovidos de brinquedos. Por sua vez, os ratos SC apresentam um número maior de ramificações nas células estelares do que os animais criados isolados e sem brinquedos (IC, ou grupo de condição de isolamento). Uma diferença ainda maior pode ser vista nas ramificações de quarto e quinto nível. Em outras palavras: as ramificações originadas do corpo da célula não aumentam devido a uma experiência sensorial, motora ou social mais rica; o inverso é verdadeiro para as ramificações no ponto dos longos processos neuronais.  Isso constitui uma evidência de que as células estelares crescem e geram novas ramificações naquelas pré-existentes, e isso é um resultado revolucionário.
           As partes das células estelares que crescem são os dendritos. É através dos dendritos que um neurônio recebe os impulsos nervosos de outras células, que são transmitidos através do corpo celular e a partir daí para o axônio. Consequentemente, o crescimento das ramificações dos dendritos só pode significar que os processos de intercomunicação nas células do córtex aumentaram e que mais dendritos tornam-os mais efetivos em termos de regulação da atividade dos circuitos neuronais.
            Esse crescimento acontece também nos seres humanos?
           Parece que sim,  embora ainda não existam evidências diretas, tais como as observadas por Diamond em ratos. Porém, sabemos que as tarefas de ativação mental são acompanhadas por muitas mudanças, tais como mudanças no metabolismo cerebral (consumo de glucose por células cerebrais, aumento do fluxo e temperatura do sangue etc.  Essas mudanças podem agora ser observadas diretamente através de novos instrumentos de imagens computadorizadas, como por exemplo as imagens por ressonância magnética funcional (fMRI) e a tomografia de emissão de pósitron (PET).





Fluxo Sanguíneo Cerebral (CBF) durante uma tarefa de ativação mental. O sujeito controle normal, linha de base (esquerda) e tarefa matemática (direita). Nesse indivíduo, o aumento da perfusão durante as tarefas matemáticas é visível tanto na área frontal  inferior e parietal  esquerda. 
Fonte: Villanueva-Meyer et. cols. - Alasbimn Journal

            A conseqüência prática do conhecimento de que as células nervosas crescem e se modificam em resposta às experiências e aprendizagem enriquecedoras é extraordinária:
                A educação de crianças em um ambiente sensorialmente enriquecedor desde a mais tenra idade pode ter um impacto sobre suas capacidades cognitivas e de memória futuras.  A presença de cor, música, sensações (tais com a massagem do bebê), variedade de interação com colegas e parentes das mais variadas idades, exercícios corporais e mentais podem ser benéficos (desde que não sejam excessivos).   Na verdade, existem muitos estudos mostrando que essa "estimulação precoce" é verdadeira.  Ainda precisamos provar se isso provoca um crescimento no cérebro das crianças, como acontece com os ratos;
             Pessoas que sofreram lesões em partes de seus cérebro, podem recuperar parcialmente as funções perdidas submetendo-se a estimulação mental intensa e diversificada, de maneira análoga à fisioterapia para os músculos debilitados;
       Alimentos ou drogas artificiais que aumentem a ramificação dos dendritos,  o crescimento dos neurônios e seu aumento de volume podem ajudar na melhora do desempenho mental e memória nas pessoas normais ou em pacientes com doenças degenerativas do cérebro, tais como Alzheimer.
          Na verdade, um estudo pioneiro realizado por Dr. David Snowdon um neurocientista da University of Kentucky com freiras católicas vivendo em um convento no norte dos Estados Unidos, revelou fatos assombrosos que apoiam a teoria da estimulação cerebral. Essas freiras foram escolhidas porque parecem apresentar uma longevidade maior que o resto da população: várias delas já haviam atingido mais de cem anos de idade.  As freiras que viveram mais e que mostravam uma melhor saúde mental eram quase sempre aquelas que praticavam atividades tais como pintura, ensino e palavras cruzadas, que exigiam um constante "exercício mental".
          De fato, Dr. David Snowdon surpreendeu-se ao observar nos exames post-mortem dos cérebros doados pelas freiras falecidas, que alguns que estavam com melhores condições mentais devida a essa rica estimulação, apresentavam todos os sinais da insidiosa doença de Alzheimer. Essa doença degenerativa nervosa, altamente incapacitante, aparece em cerca de 20% de todas as pessoas com mais de 80 anos de idade, e se caracteriza por inúmeras alterações patológicas dos neurônios, e pela morte maciça de células, especialmente as células corticais. Isso provoca profunda perda de memória, e outros tipos de deterioração do comportamento e da personalidade.



Conclusões

         O crescimento neuronal e a regeneração enquanto resposta a fatores ambientais já não parecem impossível, devido ao que a neurociência já tem revelado em experiências com animais e seres humanos.  Este conhecimento, de par com a descoberta dos mecanismos que tornam isso possível constituirá um portão para um futuro fantástico para a humanidade; um futuro onde talvez possamos manipular e influenciar nossas próprias capacidades mentais de um modo inteiramente imprevisível. Isso tem constituído o sonho duradouro tanto da ciência como da ficção científica e talvez estejamos situados no limiar de sua realização.

Aprendizagem e mudança no cérebro.

Aprendizagens e Mudanças no Cérebro

         Cardoso e Sabbatini
     Até há pouco tempo, os neurocientistas acreditavam que, uma vez completado seu desenvolvimento, o cérebro era incapaz de mudar,  particularmente em relação às células nervosas, ou neurônios. Aceitava-se o dogma segundo o qual os neurônios não podiam se auto-reproduzir ou sofrer mudanças significativas quanto às suas estruturas de conexão com os outros neurônios. As conseqüências práticas dessas crenças implicavam em que: a) as partes lesionadas do cérebro, tais como aquelas apresentadas por vítimas de tumores ou derrames, eram incapazes de crescer novamente e recuperar, pelo menos parcialmente, suas funções e b) a experiência e o aprendizado podem alterar a funcionalidade do cérebro, porém não sua anatomia.
         Parece que os neurocientistas estavam errados em ambos os casos. As pesquisas dos últimos 10 anos têm revelado um quadro inteiramente diferente. Em resposta aos jogos, estimulações e experiências, o cérebro exibe o crescimento de conexões neuronais. Embora  os  pioneiros da pesquisa em comportamento biológico, tais como Donald Hebb, do Canada e Jersy Konorski, da Polônia, acreditassem que a memória implicava em mudanças estruturais nos circuitos neurais, ainda não se dispunha de evidências experimentais que comprovassem essa noção.
           Em experiências realizadas com ratos, a neuroanatomista americana Dr. Marian Diamond foi capaz de demonstrar que os animais que foram criados em um ambiente enriquecedor -- uma gaiola cheia de brinquedos e dispositivos tais como bolas, rodas, escadas, rampas, etc. -- desenvolviam um córtex cerebral significativamente mais espesso do que aqueles criados em um ambiente mais limitado, sem os brinquedos ou vivendo isolados.  O aumento da espessura do córtex não era devido apenas a um maior número de células nervosas, mas  havia também um aumento expressivo de ramificação de seus dentritos e das interconexões com outras células.





Ambiente pobre em objetos





Um ambiente enriquecedor, que permite os ratos interagir com os brinquedos em suas gaiolas, provoca mudanças anatômicas no córtex cerebral. 

         O gráfico à esquerda mostra como o número médio de ramificações observadas nas células estelares, que são encontradas na quarta camada do córtex visual do rato, é maior  nos animais criados em ambientes enriquecedores (reta identificada como EC, isto é, condição enriquecedora) do que nos animais criados juntos em grupos sociais, (identificados como SC, ou condição de grupo social), porém desprovidos de brinquedos. Por sua vez, os ratos SC apresentam um número maior de ramificações nas células estelares do que os animais criados isolados e sem brinquedos (IC, ou grupo de condição de isolamento). Uma diferença ainda maior pode ser vista nas ramificações de quarto e quinto nível. Em outras palavras: as ramificações originadas do corpo da célula não aumentam devido a uma experiência sensorial, motora ou social mais rica; o inverso é verdadeiro para as ramificações no ponto dos longos processos neuronais.  Isso constitui uma evidência de que as células estelares crescem e geram novas ramificações naquelas pré-existentes, e isso é um resultado revolucionário.
           As partes das células estelares que crescem são os dendritos. É através dos dendritos que um neurônio recebe os impulsos nervosos de outras células, que são transmitidos através do corpo celular e a partir daí para o axônio. Consequentemente, o crescimento das ramificações dos dendritos só pode significar que os processos de intercomunicação nas células do córtex aumentaram e que mais dendritos tornam-os mais efetivos em termos de regulação da atividade dos circuitos neuronais.
            Esse crescimento acontece também nos seres humanos?
           Parece que sim,  embora ainda não existam evidências diretas, tais como as observadas por Diamond em ratos. Porém, sabemos que as tarefas de ativação mental são acompanhadas por muitas mudanças, tais como mudanças no metabolismo cerebral (consumo de glucose por células cerebrais, aumento do fluxo e temperatura do sangue etc.  Essas mudanças podem agora ser observadas diretamente através de novos instrumentos de imagens computadorizadas, como por exemplo as imagens por ressonância magnética funcional (fMRI) e a tomografia de emissão de pósitron (PET).





Fluxo Sanguíneo Cerebral (CBF) durante uma tarefa de ativação mental. O sujeito controle normal, linha de base (esquerda) e tarefa matemática (direita). Nesse indivíduo, o aumento da perfusão durante as tarefas matemáticas é visível tanto na área frontal  inferior e parietal  esquerda. 
Fonte: Villanueva-Meyer et. cols. - Alasbimn Journal

            A conseqüência prática do conhecimento de que as células nervosas crescem e se modificam em resposta às experiências e aprendizagem enriquecedoras é extraordinária:
                A educação de crianças em um ambiente sensorialmente enriquecedor desde a mais tenra idade pode ter um impacto sobre suas capacidades cognitivas e de memória futuras.  A presença de cor, música, sensações (tais com a massagem do bebê), variedade de interação com colegas e parentes das mais variadas idades, exercícios corporais e mentais podem ser benéficos (desde que não sejam excessivos).   Na verdade, existem muitos estudos mostrando que essa "estimulação precoce" é verdadeira.  Ainda precisamos provar se isso provoca um crescimento no cérebro das crianças, como acontece com os ratos;
             Pessoas que sofreram lesões em partes de seus cérebro, podem recuperar parcialmente as funções perdidas submetendo-se a estimulação mental intensa e diversificada, de maneira análoga à fisioterapia para os músculos debilitados;
       Alimentos ou drogas artificiais que aumentem a ramificação dos dendritos,  o crescimento dos neurônios e seu aumento de volume podem ajudar na melhora do desempenho mental e memória nas pessoas normais ou em pacientes com doenças degenerativas do cérebro, tais como Alzheimer.
          Na verdade, um estudo pioneiro realizado por Dr. David Snowdon um neurocientista da University of Kentucky com freiras católicas vivendo em um convento no norte dos Estados Unidos, revelou fatos assombrosos que apoiam a teoria da estimulação cerebral. Essas freiras foram escolhidas porque parecem apresentar uma longevidade maior que o resto da população: várias delas já haviam atingido mais de cem anos de idade.  As freiras que viveram mais e que mostravam uma melhor saúde mental eram quase sempre aquelas que praticavam atividades tais como pintura, ensino e palavras cruzadas, que exigiam um constante "exercício mental".
          De fato, Dr. David Snowdon surpreendeu-se ao observar nos exames post-mortem dos cérebros doados pelas freiras falecidas, que alguns que estavam com melhores condições mentais devida a essa rica estimulação, apresentavam todos os sinais da insidiosa doença de Alzheimer. Essa doença degenerativa nervosa, altamente incapacitante, aparece em cerca de 20% de todas as pessoas com mais de 80 anos de idade, e se caracteriza por inúmeras alterações patológicas dos neurônios, e pela morte maciça de células, especialmente as células corticais. Isso provoca profunda perda de memória, e outros tipos de deterioração do comportamento e da personalidade.



Conclusões

         O crescimento neuronal e a regeneração enquanto resposta a fatores ambientais já não parecem impossível, devido ao que a neurociência já tem revelado em experiências com animais e seres humanos.  Este conhecimento, de par com a descoberta dos mecanismos que tornam isso possível constituirá um portão para um futuro fantástico para a humanidade; um futuro onde talvez possamos manipular e influenciar nossas próprias capacidades mentais de um modo inteiramente imprevisível. Isso tem constituído o sonho duradouro tanto da ciência como da ficção científica e talvez estejamos situados no limiar de sua realização.

terça-feira, 23 de abril de 2019

PARA PESQUISAR SEMPRE:

Neuropsicopedagogia (informações)

Ana Lúcia Hennemann[1]-
Maio/2012 e reestruturado em novembro/2016


          Nos últimos cem anos, nossa visão de como ocorrem os processos cerebrais vem sofrendo muitas mudanças. Novas concepções de estímulo-aprendizagem vem sendo reformuladas, diante às contribuições das Neurociências. Diferentes campos de conhecimentos perceberam a necessidade de agregar os estudos das neurociências aos seus. Sendo assim, começam a surgir interesse dos mais diversos campos da ciência, tais como: neurobiologia, neurofisiologia, neuroquímica, neuropediatria, neuropsicologia, neuropedagogia e também a Neuropsicopedagogia.
             Para ter a especialização em “neuro” em qualquer área, faz-se necessária jornadas de muito estudo, pesquisa, conhecimento das funções cerebrais. Entretanto, cabe ressaltar que existem neurocientistas clínicos e experimentais, que conforme Bear (2008, p.14) 
[...] a pesquisa em Neurociências (e os neurocientistas) pode ser dividida em dois tipos: clínicas e experimentais. Pesquisa clínica é basicamente conduzida por médicos. As principais especialidades dedicadas ao sistema nervoso humano são a neurologia, a psiquiatria, a neurocirurgia e  a neuropatologia (Tabela 1.1). Muitos dos que conduzem as pesquisas clínicas  continuam a tradição de Broca, tentando deduzir as funções das várias regiões do encéfalo a partir dos efeitos comportamentais das lesões. Outros conduzem estudos para verificar os riscos e os benefícios de novos tipos de tratamento.


Fonte: Neurociências: Desvendando o Sistema Nervoso - BEAR.2008

Porém, Bear (2008) ainda apresenta outra tabela com alguns tipos de especialistas que se aliaram aos conhecimentos neurocientíficos, sendo considerados assim, Neurocientistas Experimentais, onde os Neuropsicopedagogos podem se enquadrar.


Fonte: Neurociências: Desvendando o Sistema Nervoso - BEAR.2008

          Numa visão mais abrangente, pode-se dizer que Neuropsicopedagogia é uma ciência que estuda o sistema nervoso e sua atuação no comportamento humano, tendo como enfoque a aprendizagem. A Neuropsicopedagogia procura fazer inter-relações entre os estudos das neurociências com os conhecimentos da psicologia cognitiva e da pedagogia. Nesse sentido a Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia (SBNPp) através do artigo 10º do Código  Técnico  Profissional da Neuropsicopedagogia, enfatiza que:

A Neuropsicopedagogia é uma ciência transdisciplinar, fundamentada nos conhecimentos da Neurociências aplicada à educação, com interfaces da Pedagogia e Psicologia Cognitiva que tem como objeto formal de estudo a relação entre o funcionamento do sistema nervoso e a aprendizagem humana numa perspectiva de reintegração pessoal, social e educacional. (SBNPp – 2016, p.3)

 A Neuropsicopedagogia enfoca a compreensão da relação entre funcionamento do sistema nervoso e a aprendizagem humana, embasados na interface entre Neurociências Aplicada a Educação, Psicologia Cognitiva e Pedagogia em uma abordagem transdisciplinar, promovendo desta forma a identificação, diagnóstico, reabilitação e prevenção frente às dificuldades e distúrbios das aprendizagens.
A SBNPp contextualiza o campo de atuação conforme o perfil profissiográfico do neuropsicopedagogo, ou seja, quem tem a titulação de CLINICO, trabalhará na especificidade do indivíduo e seu espaço de atuação pode ser: v “Setting” adequado para atendimentos individuais, como: consultório particular, espaços de atendimento (conhecidos também como clínicas); v Posto de Saúde; v CRAS (caso tenha autorização); v Terceiro Setor e Hospitais. Deve ser um trabalho focado em um plano de intervenção específico para atender necessidades individuais e trabalhar a aprendizagem visando a reintegração pessoal, social e educacional.
O neuropsicopedagogo que tem a titulação INSTITUCIONAL, trabalhará na coletividade dentro dos seguintes espaços de atuação: v Instituições escolares; v Centros e Associações Educacionais; v Instituições de Ensino Superior; v Terceiro Setor, como: ONGs, OCIPs entre outros.
A atuação institucional, nos cursos de neuropsicopedagogia pode vir associada a Educação Especial e Inclusão, como ocorre no CENSUPEG (Instituição pioneira no Brasil deste curso).
 O Código  Técnico  Profissional da Neuropsicopedagogia que tem como objetivo maior estabelecer critérios e de orientar os profissionais da Neuropsicopedagogia no Brasil, traz no artigo 30º as orientações do trabalho a ser desenvolvido pelo Neuropsicopedagogo conforme seu contexto de atuação:  
 Clínico:

Institucional:


Entretanto, no mês de agosto de 2016, a SBNPp emitiu a NOTA TÉCNICA Nº 01/2016, especificando toda a atividade do neuropsicopedagogo, bem como, a regulamentação da sua formação.
É possível perceber que a SBNPp tem feito constantes articulações visando a melhoria da atuação profissional neuropsicopedagógica, algumas de interesse geral podem ser acessadas por todos interessados, mas há também divulgações técnicas, boletins informativos, artigos neuropsicopedagógicos, cursos e outros que somente sócios podem ter acesso.
Portanto, se você é neuropsicopedagogo acesse o site da SBNPp www.sbnpp.com.brinforme-se de como se associar a mesma, pois ela representa todas as temáticas desta área visando ser legítima e ética quanto ao envolvimento dos profissionais, tornando a Neuropsicopedagogia algo fundamental para a sociedade, seja como área do conhecimento e como atuação profissional, proporcionando soluções eficazes para os que dependerem dela. (SBNPp, 2016)
                            

Fontes de Consulta:

BEAR, F. Mark. CONNORS, Barry. Neurociências: Desvendando o Sistema Nervoso. 3.ed. Porto Alegre, ARTMED, 2008.

BRASIL. Pós-Graduação. Disponível online em: http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=349&id=387&option=com_content&view=article Acesso em 19/04/2012

CENTRO SUL-BRASILEIRO DE PESQUISA, EXTENSÃO E PÓS-GRADUAÇÃO - CENSUPEG. Neuropsicopedagogia Clínica. Disponível online em:http://www.censupeg.com.br/censupeg_site/index.php/onde-atuamos/sc/89-neuropsicopedagogia-clinica Acesso em 10/05/2012

RUSSO, Rita Margarida Toler. Neuropsicopedagogia Clínica: Introdução, Conceitos, Teoria e Prática. Curitiba: Juruá, 2015.

SBNPp. O que Neuropsicopedagogia. Disponível no site: http://www.sbnpp.com.br/o-que-e-neuropsicopedagogia/ 

SBNPp. Código de Ética Técnico Profissional da Neuropsicopedagogia. Disponível online em:www.sbnpp.com.br 
  


[1] Esp. Neuropsicopedagogia Clínica/ Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva/ Neuroaprendizagem/
   Alfabetização/ Pós-graduanda em MBA em Coaching e Liderança para Gestão de Pessoas 





12 comentários:

  1. gostaria de fazero pós em neuropsicopedagogia,onder encontrar esta pós aqui no Rio?
    Responder
    Respostas

    1. Olá!
      Através do CENSUPEG você pode fazer esta pós, pode procurá-los pelo Facebook, ou então no site www.censupeg.com.br.
      Abraços
  2. Olá, gostaria de fazer pós em neuropsicopedagogia. Estou aqui em São Paulo capital. Tem algum local de indicação?

    Abraços,
    Beth
    Responder
    Respostas

    1. Se descobrir me passe, também tenho interesse mas não localizo em nenhum instituição educacional de SP.
    2. Faço na Instituição ACADEMUS...MUITO BOM!
    3. Faço na Instituição ACADEMUS...MUITO BOM!
    4. Por favor, qual o site dessa faculdade?
  3. Estou iniciando uma pós nesta área, espero ter muitas contribuição na minha área de atuação.
    Responder
  4. Gostaria de saber onde acho uma pós nesta área, aqui na Zona Leste de São Paulo, grata
    Responder
    Respostas

    1. Sim na Academus em Artur Alvim 2217-5015
  5. Olá se fazer a pós em psicopedagogia e neuropsicoligia posso ser uma neuropsicopedagoga?
    Responder